quinta-feira, 19 de abril de 2012

Família: Entrevista - Mariano Puig, segunda geração da Puig


Mariano Puig é membro da segunda geração de uma família espanhola proprietária da Puig, empresa multinacional de perfumes, cosméticos e moda, fundada em 1914. Mariano e mais dois de seus irmãos trabalharam na Puig desde muito jovens e o terceiro irmão liderou a diversificação do negócio.

 

Após herdarem o negócio de seu pai, os irmãos formaram uma parceria muito bem sucedida e as principais decisões eram tomadas por consenso. Mas quando se aproximavam da aposentadoria, perceberam que novas estruturas seriam necessárias para os primos da terceira geração assumirem.


Mariano e seus irmãos iniciaram o processo de sucessão no início de 1990, criando estruturas tais como a constituição familiar, conselho familiar e de acionistas, Family Office, e uma hierarquia bem definida de representações familiares. Em 1998 todas as estruturas estavam funcionando perfeitamente e os irmãos queriam celebrar a ocasião. Assim, com um grande evento, que reuniu centenas de executivos e pessoas associadas à empresa, houve a passagem oficial da responsabilidade de gestão para a terceira geração.
Pergunta: Como você se sentiu ao se aposentar de um negócio no qual dedicou décadas da sua vida?


“Em um nível emocional eu estava preocupado com o que eu faria sem o meu cargo na empresa, sem agenda e sem saber se o telefone tocaria novamente. Mas, em um nível racional, eu acreditava fortemente no que tínhamos feito, é o que chamamos de auto-desempoderamento.”
 “Assim que me aposentei do meu cargo de CEO, me mudei para longe dos escritórios da empresa e montei um novo escritório no prédio onde fica o nosso Family Office, o qual nós chamamos de ‘Casa dos Acionistas’. Eu continuei indo ao escritório quase todos os dias e montei uma equipe que me ajuda com as diversas funções que ainda me mantém bastante ocupado.”
 “Uma das funções é participar de conselhos de outras empresas familiares na Espanha. Eu também sou membro do conselho da INSEAD e da IESE, que são duas escolas de negócios focadas em empresas familiares.”
Pergunta: Até que ponto você manteve ligação com o negócio da família após a sua aposentadoria?
“No meu caso, me aposentei do cargo de CEO aos 65 anos, mas, continuei como presidente do conselho até os 70 e daí permaneci como membro do conselho. Finalmente me aposentei aos 75. Sempre de acordo com o limite etário que havíamos estabelecido.”
 “Mesmo hoje em dia eu tenho prazer de contribuir com a empresa de diversas maneiras. O departamento de recursos humanos organizou um programa de Mentoring e pediu que eu orientasse alguns dos melhores executivos, o que faço com grande prazer. Atualmente há cinco pessoas que vêm ao meu escritório, para que possamos conversar longe de seu ambiente habitual.”
“Informalmente existem momentos em que os membros da futura geração me pedem conselhos sobre os negócios. No entanto, todos nós sabemos que são apenas conselhos e que estes podem não ser seguidos.”
“Eu gosto de viajar para diferentes países nos quais visito empresas do grupo e estabeleço trocas com os colaboradores. Eu ofereço assim um contato humanizado entre a família proprietária e os executivos da empresa, construindo uma ligação mais forte. Em tais ocasiões fico disponível para ouvir atenciosamente aos funcionários e tudo que eles têm a dizer. Aproveito também para contar-lhes a história da empresa, o que também é muito valioso.”
Pergunta: Que lições você aprendeu com o seu processo de sucessão em 1990/2000?
“Primeiro, todos nós temos que aceitar que a sucessão é um processo, um longo processo e não um simples acontecimento. No nosso caso, do momento em que sentimos que precisávamos fazer algo, até me sentir completamente livre da responsabilidade executiva foi um período de 15 anos.”
 “Segundo, deve existir vontade e disposição para entregar a responsabilidade à próxima geração. Nós precisamos dessa determinação para nos auto-desempoderar.”
 “Terceiro, é importante que a futura geração prove sua capacitação quanto às suas responsabilidades executivas. Eles precisam estar dispostos e completar pacientemente o período transitório de coabitação com a geração sênior.”
 “Quarto, é crucial ter ajuda externa de especialistas em empresas familiares. Nós nos beneficiamos ao ter bons conselheiros.”
O fundamental era ter a certeza de que estávamos no controle. Por exemplo, com a constituição familiar, não precisávamos que advogados elaborassem o que eles achavam o certo; ao invés disso, discutíamos entre família o que pretendíamos e queríamos, e posteriormente contratávamos os especialistas para a formalização do processo.
“Quinto, você deve planejar os problemas com antecedência. Na década de 1990 nós elaboramos algumas estruturas de governança que não eram estritamente necessárias quando tudo estava indo bem. As estruturas envolviam tanto os membros familiares como os executivos não-familiares para garantir a tomada de decisão. Assim, quando surgiram problemas no início de 2000, estávamos preparados. Nossas estruturas eram robustas e permitiram que continuássemos em segurança.”

Pergunta: Como você adquiriu experiência com a questão da sucessão?
“O interessante sobre a sucessão é que ela acontece raramente- uma vez por geração. Meus irmãos e eu assumimos a administração da empresa no final de 1950 e foi relativamente fácil para nós. E foram quase 40 anos mais tarde que o processo se repetiu, e desta vez de uma forma muito mais complexa. São 14 membros na terceira geração, poucos trabalham na empresa e não tinha como trabalharem da mesma forma que quatro irmãos. Para ser sincero, eu não sabia como começar.”
“Felizmente nós tínhamos bons contatos com o FBN e com escolas de negócio. Então pedimos por conselhos e participamos de eventos relacionados a empresas familiares. Meus irmãos e eu adquirimos boas idéias de diversas fontes e pudemos adaptá-las ao nosso caso.”
 “Foi fundamental para o nosso processo de sucessão contar com a assistência de especialistas.”
“Hoje sinto que é um prazer contribuir com idéias para outras famílias. Espero que sejam úteis e que consigam adequá-las as suas próprias abordagens.”
Para mais informações:
Mariano Puig é um dos palestrantes do Seminário Internacional do FBN em Londres, dos dias 4-6 de Outubro de 2012. Entre os tópicos está a experiência da família Puig com a sucessão e como estão transmitindo seus valores agora para a quarta geração.

"Todos nós temos que aceitar que a sucessão é um processo."

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