quinta-feira, 19 de abril de 2012

Família: Sucessão, um projeto estratégico

Renata Bernhoeft

O processo de sucessão tem sido cada vez mais estudado e acompanhado como a fase mais delicada e desafiadora na continuidade das empresas. Mas a sucessão ainda é um tema difícil quando tratado pelas famílias, pois, apesar de sua extrema importância, seu encaminhamento vai sendo adiado por seus membros.
Os desafios do processo de sucessão são fases previsíveis que todas as empresas familiares atravessam. Seu encaminhamento requer a necessidade do preparo para diferentes papeis, que vão além de “habilitar-se para a gestão”.
Exploraremos alguns fatores que transformam a sucessão em um tema tabu para as famílias empresárias:

A sucessão remete a idéia de morte
Ao falar de sucessão é inevitável pensar na questão do afastamento ou da morte. É possível fazê-lo com suavidade, mas este tema sempre estará presente. E por essa razão as discussões podem ser muitas vezes adiadas. O importante é perceber que não podemos lutar contra as verdades biológicas inerentes a nós, seres humanos: elas são inexoráveis. As transições bem sucedidas não acontecem em função de morte ou afastamento, elas são planejadas muito antes desses momentos. Considerando que as empresas familiares vivem processos de transições previsíveis, inclusive por leis biológicas, parece fundamental em sua longevidade e nas formas de atravessar com equilíbrio e dinamismo a mudança de gerações.

A sucessão confronta questões de futuro e ideias distintas das gerações
Pensar em sucessão envolve desafios de vários aspectos: pessoais, emocionais, familiares, profissionais ou financeiros. Cada membro da família pensa em uma solução mais adequada e nem sempre isto é colocado em discussão. Principalmente quando envolve os desejos de cada uma das gerações. O planejamento da sucessão envolve questionar todos estes aspectos em grupo para que se possa ter uma estrutura negociada que englobe os desejos individuais, mas que também privilegie o desafio coletivo.

A sucessão pede nossa atuação em papéis que nunca exercemos
Relacionar-se em família parece simples, mas quando temos um objetivo comum é preciso sentar e conversar como sócios (atuais e futuros). Este papel requer novas habilidades e até novos contextos. O herdeiro precisa preparar-se para o novo momento, exercitar uma nova relação estruturando sua atuação como sócio de seus pais, irmãos e demais membros das famílias proprietárias do patrimônio.

A sucessão provoca reflexões sobre nossa competência e de nossos familiares
O preparo do herdeiro pode ser focado na gestão de empresas, ou em alguma outra carreira, mas isto não será suficiente para o novo momento. As competências da família, em geral, são vistas sob a perspectiva afetiva para minimizar possíveis desconfortos. A continuidade, no entanto, irá requerer uma análise realista e transparente do talento dos familiares, para que possa articular-se em grupo. Este tema precisará ser abordado ao planejar e implementar o processo de sucessão com eficácia.

A sucessão envolve agregar valor ao patrimônio
O planejamento da sucessão exige abordar o patrimônio sob a perspectiva de seu valor, perpetuação e crescimento. Muitos herdeiros desconhecem o real valor e os principais desafios do que irão herdar. É importante que todos os herdeiros tenham esta dimensão clara e transparente, sob pena de estarem reagindo baseados em suposições. Também é necessário considerar os aspectos do valor intangível que compõe o legado familiar.

A sucessão dá trabalho, e o planejado pode não acontecer
Pensar juntos e planejar a sucessão nos níveis de família, patrimônio e empresa é tarefa que requer investimento. Tempo dos membros da família, ajuda profissional, disposição para lidar com desgastes emocionais, desenvolvimento de novas habilidades e muito trabalho. A vantagem de fazê-lo está em criar uma linguagem comum e ter um plano negociado entre todos os envolvidos. O plano, no entanto, não garante a execução perfeita. As famílias são entidades dinâmicas assim como os indivíduos. Deve-se ter em mente que o planejamento precisa ser uma ferramenta viva, que acompanha a evolução da família e dos negócios, e revisá-los periodicamente.

A sucessão é um desafio coletivo: todos devem estar no mesmo barco.
Um dos maiores desafios deste processo é envolver todas as partes. Alguns membros da família acreditam que podem resolver a questão sozinhos. Neste caso, nem o fundador ou algum dos herdeiros poderá fazê-lo sem o grupo. A família precisa de envolvimento para sentir-se parte, e também comprometida, com o processo. A experiência aponta que os casos não negociados, de sucessão imposta, acabam por gerar insatisfações em outros membros da família. Planejar exige lideranças e isto é saudável, mas o processo precisará considerar todos os envolvidos.


Estar atento a estes desafios será importante para que o planejamento da sucessão e continuidade tenha eficácia ao longo das gerações.

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