sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Empresa: QUANDO SÓCIOS DIVERGEM...O ponto fundamental é querer de fato solucionar o conflito

Adriana Adler
As empresas contam com larga experiência em processos de gestão, complexas estruturas financeiras e tributarias. No entanto, é interessante observar como é destinado pouco tempo para a construção de estruturas societárias sólidas e sustentáveis. Este fenômeno pode ser constatado quando observamos na mídia maior frequência de conflitos entre sócios ou membros de empresas familiares desvendando, ao olhar público, o que deveria ser um entendimento privado.
Sócios que, em algum momento comemoravam a complementaridade, passam a trocar farpas e utilizam as mais variadas formas para fazer valer seus interesses. Afinal, uma boa relação inicial não traz garantia futura. A deterioração desta dinâmica gera custos financeiros e emocionais elevados quando se contabiliza o impacto na imagem da empresa, na reputação dos sócios, nos planos procrastinados e inclusive no valor da mesma. As pessoas passam a evitar a tomada de decisões travando negócios ou decidem por impulso emocional, resultando no possível comprometimento da empresa.
A Origem das Questões
As situações que geram desentendimentos são variadas. As perspectivas e interpretações do que é justo, dos direitos e deveres são distintas para cada pessoa. Uma situação bem conhecida que pode gerar desalinhamento entre sócios é o processo de sucessão. Tipicamente quem herda não necessariamente escolheu o outro sócio, que frequentemente tem outra visão e interesse. Vale mencionar, também, rivalidades e o choque entre as gerações. Ou seja, quando um filho quer investir na expansão dos negócios, motivado pelo seu momento de realização profissional e, do outro lado, o pai fundador apresenta outro apetite, buscando reconhecimento do tempo que já se dedicou à empresa e um maior equilíbrio de vida.  
As diferenças que compõem a jornada de sociedades são inúmeras e fazem parte do processo de forma natural. No entanto, na empresa familiar, a forma de lidar, abordando a dimensão conhecida como “soft” - ou seja, o intangível - é muitas vezes menosprezado, causando danos sérios tanto para as famílias como para os negócios.
O Caminho Construtivo: uma questão de consenso e diálogo
Quando se trata da família empresária, as relações entre sócios e familiares demandam num processo de diálogo e consenso sobre alguns pontos cruciais. Em primeiro lugar, é necessário compreender o grau de coesão de valores e princípios da família que sustentam suas visões e atitudes. No mesmo nível de importância, é fundamental ter clareza sobre a motivação de estar junto, ou seja, identificar a “cola” que une aquela família ou sócios.  A "cola", que conecta uma família, existe quando se tem clareza de propósito - do legado. De forma invisível a "cola" é construída através do orgulho, dos fundamentos, da tradição e das crenças daquela família. Desta forma, um sentido maior para que a família esta junto é explorado. E ao mesmo é vital compreender profundamente as expectativas individuais de vinculo com a empresa e com os demais sócios. Ou seja, saber os interesses e necessidades de cada um, seja como gestor ou como acionista.

Esta reflexão deveria ser feita no inicio de uma sociedade e continuamente. Afinal, as motivações que levam a empreender e a escolher um sócio alteram com o tempo. Seja em função de novas configurações familiares ou novos desafios do mercado, os sócios podem divergir quanto ao caminho ou estilo de gestão. Além disto, as pessoas estão sempre em transformação, descobrem novas vocações e inspirações no decorrer de cada fase de vida tornando vital a “recontratação” da sociedade.
Afinal de nada adianta ter uma estratégia de mercado brilhante se os sócios divergem em como se percebem vinculados à empresa, nas suas aspirações ou expectativas. Vale a pena dedicar o tempo para a pergunta:
Para que quero estar nesta sociedade? O que espero?

Um Bom Exemplo
Para lidar com certa resistência em priorizar a disciplina nestas discussões, pode-se nortear por bons exemplos desta construção. Final de 2008 foi anunciada a fusão do Itau com o Unibanco: duas famílias, com histórias e complementaridades construíram um modelo de governança compartilhado através de muitas conversas, durante mais de um ano, entre os representantes dos controladores. Exploraram o que tinham em comum, perceberam que os valores das empresas eram praticamente os mesmos. Realmente, aprofundaram o diálogo sobre suas aspirações e receios para construir em conjunto o novo modelo. Respeitaram e aproveitaram o melhor de cada lado compondo, de fato, a complementaridade. Que bom seria se todo o cuidado neste exemplo fosse sempre tomado.
Boa Governança como Prevenção
Entre as formas para lidar com estas questões de forma preventiva, é muito indicado o desenho do Acordo de Sócios e da Constituição da Família, no qual os princípios e critérios de como os sócios querem estar relacionados são claramente discutidos e documentados. O principal objetivo é nortear as relações entre os sócios e familiares mostrando de forma transparente quais são as regras que refletem suas crenças. Vale ressaltar que muito mais importante do que o que está escrito é o processo desta construção. Identificar o que é ético e moral para cada sociedade merece tempo e deve ser feito com engajamento. Os tempos atuais demandam espaços de maior qualidade para diálogo, opinião, inclusão e contestação. É importante prestar atenção em como se chega ao consenso, como as pessoas se ouvem, como dão espaço para que todos possam se manifestar e se sentir fazendo parte.
Desta forma, o maior desafio é de fato ter a atitude de querer compor com o diferente e ter coerência entre o que se diz e o que se faz. O primeiro passo neste caminho é ser aberto e transparente sobre o que se quer de forma respeitosa, para depois negociar com o outro.  Afinal, se o processo de construção não tiver a profundidade e a prioridade necessária, será difícil vivenciar a prática com sucesso.
Saber Compartilhar – uma atitude de sócio
Ser sócio significa, também, saber prestar contas, compartilhar decisão, dividir poder e ter responsabilidade perante vários envolvidos. Desta forma, o próprio aprendizado para ser um bom sócio se torna imprescindível. Este saber não vem da escola, e sim, da conscientização e vivência que pode ser estruturada e acompanhada como, por exemplo: programas de desenvolvimento de futuros acionistas e presença, como ouvinte, em reuniões de conselho.
Indo além da prevenção
Se os sócios dedicassem tempo de qualidade para a construção desta dimensão intangível, teriam um tempo e desgaste bem menor no momento em que surgisse um impasse. Afinal, “combinado não é caro” e é bem mais vantajoso cuidar durante toda a jornada do que ter que gerenciar grandes incêndios que se tornam públicos e desastrosos. Os recursos preventivos para desenhar boas sociedades são inúmeros - consenso, engajamento, abertura, diálogo e aprendizado do papel de um bom sócio. E, no caso de haver dificuldade em lidar de maneira produtiva com algum conflito, pode-se ainda recorrer à ajuda externa e a métodos de resolução de conflitos como a mediação e arbitragem. Concluindo: o importante é querer lidar com o entendimento entre sócios de forma estratégica. Tenham bons diálogos, boas construções!

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