sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Explorando a “quarta dimensão” das empresas familiares


Muitos membros do FBN conhecem o modelo dos “três círculos” empresa – família e propriedade. Jon Kenfield, autor do “Guia de soluções no Negócio Familiar”, acredita que existe mais um elemento muito importante a ser considerado. Trata-se de algo intangível e imprevisível. Estamos falando da emoção (significado: “feito com paixão”) e é “a base sobre a qual todas as  empresas familiares foram criadas.” Jon Kenfield argumenta que é possível negociar melhor as questões das empresas familiares, explorando a dimensão da emoção.
Vamos começar recapitulando como as pessoas pensam sobre seus negócios familiares. A expressão “negócio familiar” imediatamente sugere duas dimensões: um sistema familiar e um sistema empresarial. Voltando ao ano de 1982, um documento influente elaborado por Renato Tagiuri e John Davis, sugeriu a existência de uma terceira dimensão: a propriedade. Apontando uma estrutura clara, facilitou a classificação dos stakeholders, que podiam ser familiares, proprietários, executivos ou qualquer combinação destes três grupos. O modelo dos  três círculos mostrou-se muito útil desde então.
Porém, durante este intenso trabalho de consultoria em empresas familiares, Jon Kenfield sentiu que muitas das questões levantadas não se encaixavam em nenhum dos três círculos. As questões eram sobre indivíduos e assuntos emocionais.
Assim,  Jon prefere pensar sobre negócios familiares de maneira diferente. Ele pensa em sistema familiar e sistema empresarial  (como é usual), porém substitui “propriedade”por “indivíduo”. Ele acredita que tudo é afetado pela quarta dimensão: a das emoções.
Questões emocionais não devem ser ignoradas
Jon percebeu que são as questões emocionais dos indivíduos que “geram orgulho e paixão levando o negócio a alturas extraordinárias; que cria competitividade, desapontamento e conflitos que podem afundá-la, destruindo a família ao mesmo tempo.”.
A história que se segue foi baseada em um caso do ‘Guia de Soluções para a Empresa Familiar’, e demonstra como fica mais fácil compreender um problema na empresa familiar se há foco no individuo/emoção.


Jon argumenta que todos trazem consigo alguma bagagem emocional, que carregamos conosco de forma imperceptível. Mas, em uma empresa familiar os problemas podem ficar muito mais opressivos, na medida em que os membros da família tem que trabalhar junto com parentes, que muitas vezes deram origem a estes sentimentos. Ficar carregando emoções pode causar explosões repentinas ou stress acumulado. Ambos podem desestabilizar e prejudicar profundamente a família e o negócio.
“Algumas pessoas sabem lidar com suas emoções, outras não, principalmente se há outros familiares envolvidos” escreve Jon. “Pode faltar força ou talento, ou os problemas são tão profundos, que requerem intervenção profissional, para manter as emoções sob controle. “

Assim, para Jon, faz absoluto sentido incluir a importantíssima variável emocional no modelo mental das empresas familiares.  Porém, parece que muitas famílias propositadamente viram as costas às questões emocionais. Também é uma área que a maioria dos conselheiros empresariais teme enfrentar “porque não é um ambiente seguro e controlável, sem precedentes e imprevisíveis.”.
Will e Harry
Will é o dono administrador de uma empresa de sucesso no setor de proteção pessoal (guarda costas para empresários que viajam a lugares perigosos do mundo). Seu filho, Harry é muito inteligente e provou sua competência em um escritório de advocacia, do qual esta no firme processo de tornar-se sócio.
Will decide se aposentar dentro de um ano e faz a Harry uma oferta maravilhosa. Ele diz: “Filho, desista do seu emprego como advogado e venha trabalhar na empresa da família. Podemos trabalhar juntos durante um ano e depois você assume meu lugar no comando da empresa. Nesta ocasião te transfiro ações suficientes para você controlar o negócio.”.
Tudo isto parece ótimo e coerente do ponto de vista da família/ negócio / propriedade. Harry decide aceitar a proposta.
Mas, a nível de individuo e das emoções nem tudo é tão coerente.
Harry tem um relacionamento amistoso com seu pai, mas não são especialmente próximos. De fato, Harry sempre teve um pouco de medo do pai. Desde pequeno evitou cometer erros com medo de chatear seu pai, provocando uma das suas reações violentas e humilhantes. Harry segue este modelo de comportamento – natural – mas seu desejo de evitar erros dificulta muito a tomada de decisões na empresa. 
Outrossim,  apesar de sua inteligência, Harry detêm apenas pequeno conhecimento sobre o ramo de proteção pessoal. A maioria dos funcionários da empresa é ex-militar, sem muito respeito por advogados. Harry, que é um sujeito basicamente urbano, se sente intimidado  ao entrar no escritório pela primeira vez, sentindo-se completamente for a de eixo.
Will não tem empatia pela posição do filho. Sendo uma pessoa inteligente, ele deveria captar rapidamente suas atribuições, não é mesmo? Afinal, Harry é seu filho. Mas, após alguns meses desapontadores, até Will tem que admitir que Harry não está dando conta das situações que exigem autoridade, obstinação e força bruta, tão natural para Will.
Harry começa a se sentir cada vez mais desconfortável e deseja voltar para o escritório de advocacia, tão familiar e compreensível. Seu relacionamento com o pai fica frio e tenso.
Um dia, aparentemente do nada, um pequeno incidente na empresa causa um súbito e acalorado embate entre Will e Harry. A situação poderia ter sido bem complicada, se um dos ex-militares não tivesse segurado Harry. – com um braço de ferro, que deixou o advogado parecendo uma criancinha presa. Depois de solto, Harry saiu correndo do escritório e nunca mais voltou.
Pela saúda das relações familiar, pai e filho estão tentando acertar os ponteiros. Contrataram um mediador, que está ajudando a que ambos entendam que vêm de mundos diferentes. Will tem que aceitar que seu filho não serve para administrar um negócio no setor de proteção pessoal. Harry tem que aceitar que é melhor advogado que empresário. Ambos, Will e Harry, tem que aceitar que tem que assumir compromissos com o outro, almejando uma comunicação melhor no futuro.
Focando no indivíduo – e não apenas em estruturas legais e sistemas organizacionais – as famílias podem evoluir em direção a soluções. A chave para a paz e prosperidade na família está baseada na compreensão da dimensão emocional envolvida.
Questões para reflexão
Dada a devida ênfase na “quarta dimensão”Jon Kenfield encoraja famílias empresárias a refletir sobre fatores emocionais intangíveis. Seguem alguns exemplos de questões relevantes:  
*       Temos planos de desenvolvimento para membros da família que incluam desenvolvimento pessoal ? Estes planos estão em harmonia com nossa cultura organizacional?
*       Temos programas específicos de comunicação para solução de problemas, tomada de decisão e administração de conflitos?
*       Existe um Código de Conduto de como os membros da família devem se comportar perante os outros em reuniões? Como tratar familiares que não respeitam estes códigos? Em caso de dificuldades emocionais, sabemos a que recorrer, como meditação, por exemplo?
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*       Para mais informações:
‘Guia de Soluções para a Empresa Familiar: estratégias e estruturas para a paz & prosperidade “foi escrito por Jon Kenfield e publicado em 2011 pela The Solutionist Group Pty Ltd.”. Também disponível em formato eletrônico e-book.


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