Muitos membros do FBN conhecem o modelo dos “três círculos”
empresa – família e propriedade. Jon Kenfield, autor do “Guia de soluções no
Negócio Familiar”, acredita que existe mais um elemento muito importante a ser
considerado. Trata-se de algo intangível e imprevisível. Estamos falando da
emoção (significado: “feito com paixão”) e é “a base sobre a qual todas as empresas familiares foram criadas.” Jon
Kenfield argumenta que é possível negociar melhor as questões das empresas
familiares, explorando a dimensão da emoção.
Vamos
começar recapitulando como as pessoas pensam sobre seus negócios familiares. A
expressão “negócio familiar” imediatamente sugere duas dimensões: um sistema
familiar e um sistema empresarial. Voltando ao ano de 1982, um documento
influente elaborado por Renato Tagiuri e John Davis, sugeriu a existência de
uma terceira dimensão: a propriedade. Apontando uma estrutura clara, facilitou
a classificação dos stakeholders, que podiam ser familiares, proprietários,
executivos ou qualquer combinação destes três grupos. O modelo dos três círculos mostrou-se muito útil desde
então.
Porém,
durante este intenso trabalho de consultoria em empresas familiares, Jon
Kenfield sentiu que muitas das questões levantadas não se encaixavam em nenhum
dos três círculos. As questões eram sobre indivíduos e assuntos emocionais.
Assim,
Jon prefere pensar sobre negócios familiares
de maneira diferente. Ele pensa em sistema familiar e sistema empresarial (como é usual), porém substitui
“propriedade”por “indivíduo”. Ele acredita que tudo é afetado pela quarta
dimensão: a das emoções.
Questões emocionais não devem ser ignoradas
Jon percebeu que são as questões emocionais dos indivíduos que “geram orgulho e
paixão levando o negócio a alturas extraordinárias; que cria competitividade,
desapontamento e conflitos que podem afundá-la, destruindo a família ao mesmo
tempo.”.A história que se segue foi baseada em um caso do ‘Guia de Soluções para a Empresa Familiar’, e demonstra como fica mais fácil compreender um problema na empresa familiar se há foco no individuo/emoção.
Jon
argumenta que todos trazem consigo alguma bagagem emocional, que carregamos
conosco de forma imperceptível. Mas, em uma empresa familiar os problemas podem
ficar muito mais opressivos, na medida em que os membros da família tem que
trabalhar junto com parentes, que muitas vezes deram origem a estes
sentimentos. Ficar carregando emoções pode causar explosões repentinas ou
stress acumulado. Ambos podem desestabilizar e prejudicar profundamente a
família e o negócio.
“Algumas
pessoas sabem lidar com suas emoções, outras não, principalmente se há outros
familiares envolvidos” escreve Jon. “Pode faltar força ou talento, ou os
problemas são tão profundos, que requerem intervenção profissional, para manter
as emoções sob controle. “
Assim,
para Jon, faz absoluto sentido incluir a importantíssima variável emocional no
modelo mental das empresas familiares. Porém,
parece que muitas famílias propositadamente viram as costas às questões
emocionais. Também é uma área que a maioria dos conselheiros empresariais teme
enfrentar “porque não é um ambiente seguro e controlável, sem precedentes e
imprevisíveis.”.
Will e Harry
Will
é o dono administrador de uma empresa de sucesso no setor de proteção pessoal
(guarda costas para empresários que viajam a lugares perigosos do mundo). Seu filho,
Harry é muito inteligente e provou sua competência em um escritório de
advocacia, do qual esta no firme processo de tornar-se sócio.
Will
decide se aposentar dentro de um ano e faz a Harry uma oferta maravilhosa. Ele
diz: “Filho, desista do seu emprego como advogado e venha trabalhar na empresa
da família. Podemos trabalhar juntos durante um ano e depois você assume meu
lugar no comando da empresa. Nesta ocasião te transfiro ações suficientes para você
controlar o negócio.”.
Tudo
isto parece ótimo e coerente do ponto de vista da família/ negócio /
propriedade. Harry decide aceitar a proposta.
Mas,
a nível de individuo e das emoções nem tudo é tão coerente.
Harry
tem um relacionamento amistoso com seu pai, mas não são especialmente próximos.
De fato, Harry sempre teve um pouco de medo do pai. Desde pequeno evitou cometer erros
com medo de chatear seu pai, provocando uma das suas reações violentas e humilhantes.
Harry segue este modelo de comportamento – natural – mas seu desejo de evitar
erros dificulta muito a tomada de decisões na empresa.
Outrossim, apesar de sua inteligência, Harry detêm
apenas pequeno conhecimento sobre o ramo de proteção pessoal. A maioria dos
funcionários da empresa é ex-militar, sem muito respeito por advogados. Harry, que
é um sujeito basicamente urbano, se sente intimidado ao entrar no escritório pela primeira vez,
sentindo-se completamente for a de eixo.
Will
não tem empatia pela posição do filho. Sendo uma pessoa inteligente, ele
deveria captar rapidamente suas atribuições, não é mesmo? Afinal, Harry é seu
filho. Mas, após alguns meses desapontadores, até Will tem que admitir que
Harry não está dando conta das situações que exigem autoridade, obstinação e
força bruta, tão natural para Will.
Harry
começa a se sentir cada vez mais desconfortável e deseja voltar para o
escritório de advocacia, tão familiar e compreensível. Seu
relacionamento com o pai fica frio e tenso.
Um
dia, aparentemente do nada, um pequeno incidente na empresa causa um súbito e
acalorado embate entre Will e Harry. A situação poderia ter sido bem
complicada, se um dos ex-militares não tivesse segurado Harry. – com um braço
de ferro, que deixou o advogado parecendo uma criancinha presa. Depois de
solto, Harry saiu correndo do escritório e nunca mais voltou.
Pela
saúda das relações familiar, pai e filho estão tentando acertar os ponteiros. Contrataram
um mediador, que está ajudando a que ambos entendam que vêm de mundos
diferentes. Will tem que aceitar que seu filho não serve para administrar um
negócio no setor de proteção pessoal. Harry tem que aceitar que é melhor
advogado que empresário. Ambos, Will e Harry, tem que aceitar que tem que assumir
compromissos com o outro, almejando uma comunicação melhor no futuro.
Focando
no indivíduo – e não apenas em estruturas legais e sistemas organizacionais –
as famílias podem evoluir em direção a soluções. A chave para a paz e
prosperidade na família está baseada na compreensão da dimensão emocional
envolvida.
Questões para
reflexão
Dada
a devida ênfase na “quarta dimensão”Jon Kenfield encoraja famílias empresárias
a refletir sobre fatores emocionais intangíveis. Seguem alguns
exemplos de questões relevantes:
‘Guia
de Soluções para a Empresa Familiar: estratégias e estruturas para a paz & prosperidade
“foi escrito por Jon Kenfield e publicado em 2011 pela The Solutionist Group
Pty Ltd.”. Também disponível em formato eletrônico e-book.

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